Fotos e Vídeos

7 08 2007

Amigos. Estaremos seguindo para Lisboa entre amanhã e depois. Chegando lá, com calma, subiremos vários vídeos que ainda não foram colocados, bem como atualizaremos as fotos.

Beijos e abraços

:: Adriano ::



Buen Camiño

7 08 2007

Realizados! Esta é a palavra que resume a maneira como nos sentimos neste momento.

Parece que em todos os momentos-chave da nossa viagem, como a saída e a chegada, damos um “perdido” aqui no blog, não é? Mas a verdade é que uma sucessão de fatos impediu que pudéssemos atualizar as informações diretamente daqui - o que a Glau, muito eficientemente, tratou de fazê-lo.

No sábado, véspera da nossa chegada a Santiago, saímos cedo de Sarriá com a intenção de naquele dia chegar à cidade de Melide, a cerca de 55 Km de Santiago. Assim, no domingo teríamos tempo de sair cedo e chegar para a tradicional missa dos peregrinos, que começa ao meio-dia.

Saímos num ritmo mais lento que o normal. Queríamos aproveitar cada pedacinho de caminho que restasse com calma e tranqüilidade. E assim foi, até que nos demos conta de que estávamos ficando muito atrasados na nossa jornada. Aumentamos então o passo para que os horários nao ficassem tão prejudicados. O fato é que a etapa, apesar de não ter grandes subidas pelo caminho, é de um sobe-desce constante, o que faz com que a nossa parte física fosse bem exigida.

Quase já chegando em Melide, estávamos sem almoçar ainda e já eram 16h00. Tínhamos pedalado 70 Km “na perna”, como se diz. Ou seja, estávamos bem cansados e tudo o que queríamos era um bom banho e um belo prato de comida.

O que não contávamos é que a cidade estivesse lotada. Fomos ao albergue, vários hostais, hotéis e a resposta era sempre a mesma: “Estamos completos!”

Era uma situação complicada. Apesar do cansaço, sabia que à frente havia uma outra cidade um pouco maior, Arzua, onde poderíamos, talvez, encontrar o nosso abrigo, bem como acessar a net para atualizar o blog.

Como nesta época o sol aqui na Espanha se põe por volta das 21h00, calculamos que haveria tempo para comermos, descansarmos um pouco e daí enfrentarmos os 15 Km que faltavam até Arzua - afinal 15 Km nao é muito, mas sempre deve se considerar que seguimos por caminhos fora-de-estrada e sujeito a muitos imprevistos.

Imprevisto. Eita palavrinha!! Saímos de Melide por volta das 17h30 e depois de pedalados uns 5 Km, senti a traseira da minha bike dançando. Já sabia: meu sexto pneu havia furado.

A troca do pneu traseiro com a bike toda cheia de bagagens é sempre uma tarefa chata. Tem que deixar a bike de lado e, para colocar e tirar a roda, tem que ser quase na marra.

Foi na hora de tirar a roda que descobri um outro “detalhe”. Havia um raio partido na minha roda traseira, o que a tinha empenado. Ou seja, além de tudo, ainda estava tendo que fazer o dobro da força.

Se durante a semana já é complicado achar algo aberto por aqui, no sábado e domingo é impossível! Ou seja, para arrumar a bike e chegar a Santiago, eu teria que esperar até segunda - e estávamos a menos de 50 Km do destino!

E outra: não dava para saber ainda se conseguiríamos encontrar um lugar em Arzua. O caminho nos quilômetros finais fica muito cheio. Muita gente só faz desses trechos até Santiago. Com isso, os locais de hospedagem, nesta época de férias europeias, ficam lotados de estudantes que fazem o caminho.

Não tínhamos escolha: teria que tentar levar do jeito que desse. A verdade é que a minha bike já estava todo estrupiada há tempos. O câmbio dianteiro parou de funcionar logo depois do problema com a mecânica em Logrono. O traseiro às vezes funcionava, às vezes ficava soltando a marcha na subida. Terrível…

Os freios trabalhavam o tempo todo porque, com as rodas traseiras e dianteiras um pouco tortas, seguravam a bike demais. A bichinha realmente estava só o pó, mas esperar até segunda-feira nunca seria uma opção.

O fato foi que, levando a bike “na boa” total, encontramos um pueblo que nem o nome me lembro neste momento. Achamos um lugar com pensión e, vencidos pelo cansaço e pela dúvida de achar outro alojamento, por ali ficamos. Claro que internet ali seria o mesmo que achar uma máquina de Coca-cola no Saara. Enfim… Nos contentamos com a boa sorte de achar um bom lugar, com uma boa comida e domingo seria outro dia. Como dizemos aqui, pedalamos um dia de cada vez.

Retomando os fatos deste dia: lembrei de uma família muuuuito bicho-grilo que encontramos. Viajam marido, mulher e duas crianças. A menor, uma garotinha de uns 2 ou 3 anos de idade, vai num carrinho fechado e todo enfeitado de flores. Os pais parecem ter saído de Woodstock hoje mesmo. Figuraças que registrei em foto e que colocarei no álbum nos próximos dias.

Lais, apesar de saber que você nao me lê, esta é para você. Neste dia, por volta das 12h30, paramos num bar do caminho para fazermos um lanche e tomar algo. Fazia um calor infernal. Daí arrumando as coisas na bike para sair e advinha o começou a tocar no rádio do lugar? “Hace calor, hace calor…”. Inacreditável! Os próprios Los Rodrigues vêm fazer companhia num momento tão quente!! Andrés Callamaro mandou lembranças.

Domingo! O dia que seria aquele que chegaríamos, começou fora da hora. Sim! O despertador do Ronnie não funcionou e acordamos atrasados! Puxa vida! Além de termos que ir “pianinho” por causa da minha bike, ainda estávamos bem atrasados. Tivemos então que nos conformar de que não seria possível assistir à missa dos peregrinos.

O caminho até Compostela foi de introspecção, pelo menos para mim. Pensava em tudo o que tinha vivido, nas coisas que vi, aprendi e - por que não? - ensinei. Estava feliz por estar chegando ao destino, mas ao mesmo tempo com um pouco de tristeza por estar terminando. Normal, acho eu…

A chegada ao Monte do Gozo, a pouco mais de 5 Km de Santiago, é a ultima subida do caminho e o visual lá de cima é ainda mais bonito pelo que representa! Vimos que todos os que ali chegavam, chegavam sorrindo. Afinal, o topo marcava o fim da longa jornada e tudo o que tinham a fazer, assim como nós, era descer o morro.

Chegamos a Santiago exatamente às 13h00 da tarde, quando todos saíam da Catedral. Foi um momento difícil de explicar aqui. Cercados por pessoas de todos os lugares do mundo, que tinham chegado ali como um motivo comum e por razões diferentes, nos abraçamos e choramos. Foi o momento de colocar pra fora toda a alegria de um desafio conquistado, de um sonho realizado.

Ficamos ali sentados no chão, com as bikes de um lado e nós de outro, enquanto pessoas de todos os lugares passavam e nos perguntavam sobre a viagem. Queriam tirar fotos conosco. Um momento inesquecível!!

Neste dia também foi dificil usar a internet, não por não haver cybers abertos. Mas era o nosso momento de relaxamento, de celebração e curtição. Sabíamos que entenderiam. ;-)

Amigos que têm vontade de fazer este caminho: não deixem este sonho para trás. Eu sei que às vezes é dificil priorizarmos uma viagem perto de tantas necessidades da vida cotidiana, mas uma coisa que tenho cada vez mais comigo é que comprar coisas até nos dá algum prazer. Mase é um prazer muito passageiro. Quando se faz um viagem como esta, é um prazer com o qual vou poder viver para sempre.

Depois de passada a emoção inicial, procuramos um hotel para nos instalarmos e sairmos para conhecer a cidade, que é muito bonita, além de toda a história que a envolve.

O que não tínhamos dito para vocês ainda é que já tínhamos em mente que, após chegar a Santiago, esticaríamos a viagem até Finistérre. Segundo conta a história (que, aliás tem várias versões), o corpo do apóstolo Tiago havia sido enterrado lá e só posteriormente foi transferido pra Santiago. Então como o caminho ainda é considerado encerrado somente lá (cerca de 90 Km a mais), é claro que não iríamos deixar pra lá, né?

A única coisa que sabíamos, porém, é que no dia seguinte acordaríamos mais tarde para descansar, cumpriríamos algumas tarefas como buscar o mala bike no correio, mas, principalmente, fazer uma revisão na minha pobre bike, que chegou só no esforço até seu destino.

Na saída, à tarde, fui pego “no laço” para pagar um mico no número final de um grupo de palhaços argentinos (não, não estou falando de um argentino comum; é o de circo mesmo), já que na cidade estava acontecendo o Festival Internacional de Palhaços. No número, eu tinha que ficar deitado no chão com as pernas flexionadas e o palhaço ficaria de pernas pro ar apoiado nelas. Achei que seria moleza, mas na hora que o negócio começou tive que fazer uma força danada. Senti, inclusive, um início de cãibra na perna. Já imaginaram a cena: eu lá na frente de todo mundo gemendo de cãibra?

O que acontece é que acho que esta brincadeira meio que afetou um pouco as minhas costas, apesar de eu não ter percebido nada de grave na hora.

No dia seguinte, seguimos nossa programação e após deixarmos a minha magrelinha em forma de novo, saímos com a intenção de cumprir cerca de 45 Km do caminho para Finistérre e finalizar hoje (terça) a nossa jornada.

O que aconteceu, porém, é que depois da bike, fui eu que dei defeito. Comecei a ter uma dor muito forte na base da coluna que me impedia de pedalar direito e até de andar. Comecei a pensar que teria que abortar tudo ali. Então, como estávamos numa cidade um pouquinho maior chamada Negreiros, decidimos que mesmo com a pouca quilometragem (25), ficaríamos por ali naquela noite e decidiríamos no outro dia o que fazer.

Fui na farmácia e comprei antiinflamatórios em pomada e comprimido. E cruzei os dedos.

O problema não sei dizer se foi só da carga acumulada de pedaladas, ou do adicional de peso que houve em Compostela, ou se culpa do palhaço argentino (não de circo) que minhas costas estavam assim. Mas, enfim, só no dia seguinte teria a resposta.

Neste dia também foi impossível usar a internet. Os dois cybers do lugar estavam fechados para férias (de 3 meses… fala sério!).

Acordei hoje sem dores e, é claro, fomos pedalar! Tomamos nosso café e partimos. Nos primeiros quilômetros comecei a sentir uma dor no glúteo esquerdo tal qual ontem e comecei a ficar preocupado. Decidi que pedalaria só com a perna direita para aliviar o lado esquerdo do corpo. E assim foi. Fizemos os 70 Km até Finistérre em pouco mais de 6 horas de pedaladas e valeu cada metro. Lugares lindos pelo caminho, mas o destino final é insuperável. Nossa! Lindo demais. As fotos logo vêm.

Meus amigos: gostei da chance de poder falar um pouco, sob meu ponto de vista em cima de uma bike, e decidi manter este espaço sempre atualizado com histórias de outras viagens e  coisas afins, até porque ainda continuaremos mais dias aqui pela Europa e nossas magrelas vão aonde a gente for.

A chegada a Finistérre foi, para mim, quase tão emocionante quanto a chegada a Santiago. Havíamos pedalado a Espanha de leste a oeste e estávamos no ponto mais ocidental do país. Na nossa frente só o Atlântico majestoso. Coloquei no GPS: São Paulo. Ele apontou a direção e marcou: 8921 Km. Saudades!!!

Tenho certeza de que esta não foi a única vez que fiz esta jornada. Estarei aqui outras vezes, com certeza. No estilo do Menu Peregrino, penso que só comi o primero plato. Do prato principal ainda nem provei, bem como da sobremesa. Bom… Do vinho tenho certeza que já tomei uma boa parte. :-)

No domingo, quando estávamos na praça da Catedral, um senhor francês chegou até mim e disse, sério: “É proibido motores aqui!” Olhei pra ele meio confuso e ele, num sorriso largo, me apontou as pernas.

Sou muito feliz, pois estes motores me trouxeram até hoje muitas coisas boas. Agora me levaram até o Fim da Terra.

Buena vida a todos.

:: Adriano ::



Por que parar?

6 08 2007

Notícias via Skype novamente, já que nossos destemidos ciclistas não têm tido tanta sorte com cybercafés e redes wi-fi como nas pedaladas…

No domingo, eles concluíram os mais de 800 km até Santiago, onde chegaram por volta das 13 horas de lá (o fuso é de 5 horas a mais). Sobre a emoção eles contam mais depois…

Fato é que decidiram aumentar o trajeto e chegar até Finisterra, 104 km para frente, para onde seguem os peregrinos que querem conhecer o mar e ver o “fim do mundo” (ou o “fim da terra”). O Sr. Google me disse que essa região está situada nos “confins do velho continente”, num dos pontos extremos da Europa, rodeada de lendas e tradições que a transformaram em ponto turístico. Pelos relatos encontrados, dá para imaginar a beleza das fotos e vídeos que nossa dupla vai produzir…

Mas retomando o assunto, depois de Santiago, a carga das bikes aumentou com a bagagem que havia sido despachada pelo correio. Por isso (ou por conta da apresentação com clowns que vai ficar de suspense para quando eles atualizarem o blog), as costas do Dri doeram mais do que deveriam e eles pararam hoje (segunda) em Negreira, onde não há cybers, não há wi-fi, não há restaurante aberto na hora do almoço nem cafeterias que sirvam lanches antes das 21 horas… Ou seja, nada de novidades contadas por eles…

Se as dores passarem, amanhã (terça) mesmo eles fecham os 70 km faltantes e contemplam a beleza do fim do mundo. Caso contrário, podem abortar o resto do passeio por aí mesmo (o que eu duvido muito!).

Es solo esto! Hasta luego!

 :: By Glau ::



Quase lá…

4 08 2007

Notícias via fone, além-mar: neste sábado, Adriano e Ronnie pedalaram mais que previam. Na primeira cidade pela qual passaram e pretendiam ficar, as instalações estavam lotadas.

Restou-lhes seguir adiante e parar num povoado que nem internet decente oferecia. Nada que o cansaço extremo pudesse comprometer o descanso, obviamente…

 Amanhã é o dia. Santiago os espera… Torcida ansiosa por novas notícias não falta para nossos ciclistas…

:: By Glau ::



São Tiago, mais do que nunca, nos espera…

3 08 2007

Amigos, que dia!!!!

Pulamos da cama às 06h00 sabendo da nossa missão do dia: enfrentar o temido Cebreiro. Descemos pra tomar o nosso café da manhã que os nossos hospitaleiros brasileiros tinham preparado. Tomamos leite, café e nos enchemos de pão com Nutella. Nhamm… pedalando pode.

Mais uma vez, a despedida dos nossos hospitaleiros foi difícil. Os nossos, agora, amigos Itabira e Cristina foram se despedir pessoalmente e o “Bira” tocou o sino na nossa saída. Pra mim, então, foi um pouco mais emocionante, porque a Cristina colocou para tocar uma música da Adriana Calcanhoto que me faz lembrar sempre dos meus filhos.

Consegui conter uma choradeira sem fim, mas um choro contido foi impossível. Acho que é uma mistura de emoções. O fato de o caminho estar acabando, a saudade de casa, os desafios vencidos, a histórias ouvidas, enfim…

Ontem à noite, na hora da cena, foi outro momento bacana. Estávamos reunidos em volta para comer a comidinha brasileira com pessoas de várias nacionalidades e o Bira pediu para que todos se apresentassem e falassem um pouco do caminho. Qualquer coisa. Foi bacana ver o ponto de vista de diferentes pessoas, de diferentes partes do mundo e do que esperam disso.

O caminho é uma grande metáfora. Risque de qualquer lugar que ver escrito “caminho” e substitua por “vida” e verá que não é necessário estar na Espanha para estar caminhando para Santiago de Compostela.

Acho que o que faz este caminho tão especial é justamente isso: a reflexão sobre nós mesmos e de como podemos administrar as coisas que temos e não temos.

E foi com este pensamento que encaramos o tal Cebreiro. Depois de muito falarmos com todos que já conheciam e ouvir de maneira unânime (”Não vão pelo caminho tradicional! É impraticável para bikes!”) decidimos que iríamos pelo caminho alternativo pela carretera. No início nos sentimos meio culpados. Será que estamos perdendo algo? Com certeza sim.

Mas a minha principal ponderação foi: entre empurrar a bike no caminho original e pedalar no caminho alternativo, nossa opção foi pedalar! Afinal, foi pra isso que viemos, também!

Até porque mesmo o caminho alternativo é sinalizado e considerado “o caminho” também. Mas não pensem vocês que, por ser quase todo pelo asfalto, que o negócio é fácil. Foi um subida de “responsa” daquelas que faz a gente suar, suar e suar - e nao é jeito de falar.

E olha que o dia amanheceu bem frio!!! Frio mesmo, apesar do tempo limpo.

Aliás, tenho que contar de uma passagem engraçada assim que acordei. Havia no albergue vários outros ciclistas espanhóis. Se nós, ciclistas brasileiros, mesmo já usamos umas roupas meio esdrúxulas, o caras daqui nao têm limite. Saí meio sonolento do alojamento e desci para o banheiro, quando me deparei com um ciclista que vestia óculos de sol de armação branca, sapatilha roxa, uma roupa tipo aqueles “macaquinhos” interiços, só que de manga e pernas compridas - porém, totalmente pink!

Putz, o negócio chegava a brilhar no escuro! Minhas pupilas se dilataram e encolheram num milésimo de segundo e tenho certeza que cambaleei. Pô! Logo cedo um negócio desses! Que susto!

Voltando à subida, posso dizer que foi demais. O visual, a temperatura, as pessoas incentivando… Tivemos que fazer bastante força pra levar as bikes e alforges montanha acima, que lembra a subida pra Campos do Jordão, com 17 Km de extensão. Doeu? Doeu. Por isso foi bom demais!

Mas o mais bacana foi, ao chegarmos ao topo, um senhor com uma corneta destas de chifre, estilo medival, esperou que passássemos e tocou a plenos pulmões. Depois ainda gritou: “Championships of the tour!”

Foi muito legal. O visual lá de cima, sem perder a chance do trocadilho, é de perder o fôlego. Demais!!

Fomos para a taberna que existe no lugar e estava abarrotado de ciclistas! Era um festival de homem de bermuda de lycra que parecia propaganda da Valisére. Tomamos ali nosso café, com bocadillo de torta francesa, jamón e queso e lá seguimos nós, que a descida nos esperava.

A região em que estamos agora, a Galicia, é linda! Muito verde, muitos rios, muita natureza preservada… As descidas aconteciam sempre pelos bosques e caminhos rurais, cada um mais lindo que o outro. A gente pedalava 5 minutos e parava pra tirar foto. Só estando aqui pra entender.

Uma outra passagem engraçada (e piada-interna entre nós) foi um “japa”, como nós o chamávamos. Um ciclista de origem oriental que encontramos no segundo dia de viagem. Ele não fala com ninguém, até porque nem deve saber o espanhol. Mas o que nos chamou a atenção na primeira vez que o vimos era a sua irritação com a própria bike. Também pudera: a dele era uma bike destas simples, com bagageiro de canote, e a bagagem em cima dela fica o tempo todo caindo para todos os lados. Naquele dia, o bicho chegou irritado onde nós estavamos e depois se foi.

Comentamos entre a gente que ele não iria longe daquele jeito. Ou iria sofrer muito ou iria desistir mas, enfim, deixamos pra lá e seguimos também o nosso caminho.

O que a gente não contava é que, com o passar dos dias, de vez em quando um só dizia para o outro meio incrédulo: “Meu, olha aí o ‘japa’”! O cara é mesmo do tipo persistente, bem ao estilo oriental. Mesmo nos dias que fizemos um traçado maior, pelo visto, de um jeito ou de outro, ele meio que estava nos acompanhando.

A verdade é que já há uns 5 ou 6 dias não o vimos mais. Até comentamos que finalmente ele devia ter desistido ou tinha ficado pra trás, já que a coisa não estava fácil pra ele.

Pois bem. Estamos hoje num excelente Albergue em Sarria escrevendo este post, quando o Ronnie só me cutuca e me aponta a janela. Olhei e adivinhem quem vem chegando pra se hospedar???

Sabemos agora que, na verdade, o “japa” é um coreano, que continua sem conversar com ninguém, mas que, com toda a certeza, no mínimo merece a nossa admiração. Força no pedal “japa”!!!

;-)

:: Adriano e Ronnie ::

Ps. As fotos foram 100% atualizadas, minhas e do Ronnie.
Para vê-las, acessem: http://picasaweb.google.com/adrianodias

Obrigado por todos os comentários e incentivos. Não é sempre que respondemos, mas são todos lidos e realmente nos deixa animados. Por favor, nao deixem de escrever.

Abaixo, os vídeos do dia:
Despedida do Albergue Brasil:

Despedida do Albergue Brasil:


Subida do Cebreiro:





Descida do Cebreiro:



Santiago verde e amarelo

2 08 2007

Hoje, depois de pedalarmos meros 40 Km, num relevo com poucas e moderadas subidas, chegamos a Vega de Valcarce. Paramos aqui como ponto estratégico. Amanhã haverá uma das grandes subidas do caminho para ser vencida, o Cebreiro. Mas o nosso principal motivo para parar aqui era o Albergue Nossa Senhora do Brasil. A hospedagem é feita por brasileiros, que já estão por aqui há alguns anos e têm a fama de bem atender aqueles que por aqui passam.

Chegamos cedo, algo como 11h00 da manhã e o albergue estava, inclusive, fechado. Mas uma música familiar e extremamente acolhedora nos fez companhia até o albergue abrir. Fomos “obrigados” a ouvir MPB da melhor qualidade interpretadas por Elis Regina, Emílio Santiago, Marrom, Djavan e figurinhas do naipe, enquanto relaxávamos embaixo da sombra de uma bela árvore.

O Itabira (sim, o hospitaleiro tem o nome da cidade do Carlos Drummond de Andrade) nos atendeu e logo, dentro da tradição hospitaleira, nos serviu um vinho para brindar a nossa chegada.

Ficamos sabendo que o jantar será à moda brasileira. VAMOS COMER ARROZ COM FEIJÃO!!!!

Mais uma vez estamos nos sentindo em casa. Como chegamos cedo, lavamos roupas, demos um trato nas bikes e agora saboreamos uma boa cerva espanhola. Esta vida de peregrino é dura, viu!

É isto aí meus amigos. Entramos agora na reta final da nossa viagem. Estamos a cerca de 180 Km de Santiago e já começa a dar saudadinha de tudo o que vimos, sentimos e ouvimos. Sabemos que a chegada vai ser daqueles momentos da vida da gente que nunca serão esquecidos e já é preciso morder os lábios só em pensar nele…

Melhor do que fazer esta viagem e viver tudo o que vivemos aqui foi ter a companhia virtual dos amigos por este blog.

Como estamos no débito com vocês, vamos postar hoje vários vídeos dos últimos dias.

Grandes beijos e abraços.

:: Adriano e Ronnie ::

** UPDATE: As fotos foram mudadas de lugar. Acessem: http://picasaweb.google.com/adrianodias

Vídeo com os Ciclistas espanhóis:

Peregrinos a Cavalo:

Chegada a Hospital de Orbigo:

Na Estrada:

Subida da Cruz de Ferro:

Na Cruz de Ferro:

Descidas da Cruz de Ferro:

Albergue Brasil:




O caminho mais dificil é sempre o mais divertido

1 08 2007
A partida hoje foi diferente. É engraçado como quando a gente se sente bem num lugar dá a sensação de uma certa “perda” ao deixá-lo. E foi bem assim que aconteceu quando deixamos o Albergue dos amigos Carlos e Malu hoje.O dia, sabíamos, ia ser duro. Teríamos que enfrentar uma grande subida até um lugar chamado a Cruz de Ferro. Seria uma subida constante desde o momento que saíssemos de Hospital de Órbigo até o topo da montanha, sendo que nos quilômetros finais o “bicho ia pegar” pra valer.

Saímos no espirito de ir poupando as forças, para usá-la no final. O fato é que, se já não houvesse dificuldade suficiente, o vento-contra havia voltado hoje - e com toda a força. Tinha momentos que parecia que a bike iria voltar pra trás.

Eu, que desde ontem estou sentindo os dois joelhos latejarem, comecei a me preocupar em como seria o ataque final ao topo. Comecei a achar que iria acabar tendo que empurrar a bike morro acima, coisa que, quem me conhece, sabe que odeio. Mas tentei não deixar isso me afetar. Pensei que cada pedalada seria uma pedalada e cada metro andado, lucro.

A verdade é que, apesar da dor nos joelhos e o vento-contra, a pedalada continuava rendendo. E como já disse antes, nosso objetivo é sempre pedalar pelo caminho original. Um peregrino espanhol até me questinou: “por que não vai pela carretera?, é mais fácil”. Eu disse pra ele que estava aqui pra fazer o Caminho e não a Carretera pra Santiago. Acho que ele entendeu. Só me deu o famoso “vale” deles e segui o meu caminho.

Não dá pra dizer que foi fácil. Foi complicado em alguns trechos, com subidas íngremes e muita pedra solta e/ou pontiaguda. Mas fomos seguindo pela trilha, mesmo vendo passar ao lado dezenas de ciclistas que preferiram a moleza da carretera.

O ataque final ao topo foi interessante. O sol, que estava forte, se foi. O vento que soprava forte contrariamente, parou e ficou apenas um ar geladinho que é maravilhoso pra pedalar. Foi a deixa que precisávamos. Olhei para o GPS e ele marcava: 6 Km para o topo. Até comentei com o Ronnie: “será possível? Estamos tão perto assim?”

Daí partimos com tudo. Foi uma subida e tanto. Memorável e gostosa. Falei até no vídeo depois que a gente tem que respeitar o caminho, já que ele muda de uma hora pra outra. Mas dentro de um certo parâmetro, foi fácil subir a tal Cruz de Ferro.

Capítulo à parte foi a descida. O caminho normal é extremamente irregular com vários “drops” e a descida é acentuada. Mas foi diversão pura. Imaginem como é fazer um single só descida, praticamente e com quase 20 Km de extensão. Adrenalina pura. Parávamos algumas vezes no caminho pra descansar as mãos e tirar fotos, mas dois minutos depois lá estávamos nós de novo, montanha abaixo.

Foi numa descida destas que o meu pneu furou, pela QUINTA vez. Quinta! Eu, que nesta minha vida ciclística inteira não devo ter somado 5 pneus furados, tive 5 em uma só viagem. Talvez a pancadaria esteja afetando a bike neste ponto, sei lá. Só sei que já acabamos com o estoque de câmaras reservas que tínhamos.

Chegamos à cidade de Molina Secca, onde procuramos um Hostal. Descobrimos que o mesmo estava lotado e, como a fome já apertava, decidimos almoçar por ali mesmo. Foi salada, frango, sobremesa e uma garrafa de vinho inteira! O detalhe é que a gente teria que seguir pra cidade seguinte para achar Hostal, mas estávamos merecendo. Desceu igual suco de uva.

Depois, pegamos a estrada alegrinhos e viemos para Ponferrada, onde dormiremos hoje, e amanhã partimos dormir em outro Albergue de brasileiro.

Lição do dia? Hummm…. Só tome o vinho depois do downhill.

Beijos e abraços a todos.

:: Adriano e Ronnie ::



Em casa novamente

1 08 2007

Saímos ontem (terça-feira) às 7h40 de El Burgo Ranero, em direção a Hospital de Órbigo. Tínhamos o local como destino, pois fiquei sabendo através de um colega da Bike One List, o Marcelo Varda, que o casal Carlos e Malu, ciclistas e moradores de Camboriú, estava trabalhando como hospitaleiros no Albergue San Miguel naquela cidade.

Logo que saímos, encontramos um companheiro de pedal que ainda não tinha participado da viagem. O nosso querido vento-contra. Como o relevo até lá era praticamente plano e sem mais obstáculos, a pedalada rendia bem, mas tivemos que passar por León… A cidade é grande e nos causou uma impressão ruim.

O comportamento dos motoristas desta cidade é completamente diferente do que estávamos acostumados até agora. Eles não respeitam a faixa de pedestres, dirigem acima do limite de velocidade e tiraram várias “finas” da gente. Parecia que estávamos andando de bike em SP. Isso sem contar as vezes em que quase fomos quase derrubados por motoristas que abriam a porta do carro inesperadamente.

A impressão foi a pior possível mesmo. Estávamos ansiosos por sair de lá o quanto antes. Aliás, este é um sentimento quase comum. Toda vez que passamos por um centro grande nos sentimos como se estivéssemos fora do caminho. Eu pessoalmente até comentei com o Ronnie hoje: parece que fiquei intolerante a centros grandes. Quero só ver como vai ser voltar pra maior cidade da América Latina.

Felizmente, depois de sofrermos para sair daquela ambiente sufocante, estávamos na terra de novo e não demorou muito pra chegarmos ao nosso destino. O casal Carlos e Malu que nos acolheu é de uma simpatia ímpar. Eles são hospitaleiros voluntários no Albergue San Miguel. Portanto, não recebem nada por este trabalho. Fazem isso pelo prazer de servir e ajudar aqueles que estão em sua busca, rumo a Compostela.

Foi muito bom ser recebido pelo calor humano que só outro brasileiro pode te dar. Brindamos na chegada com vinho e nos serviram logo depois uma deliciosa macarronada que caiu maravilhosamente bem.

Alguns podem até questinar: mas por que fazem isso sem ganhar nada? É até engraçado comparar o que eles vão ganhar com dinheiro… Eles vão ganhar algo que nunca poderá sem comprado, vendido ou doado. Vão ganhar as histórias, os sentimentos, os segredos, as perspectivas, os sorrisos, as piadas daqueles que vão passar por ali. Usar destas coisas todas e fazer a sua vida melhor nao têm como ser mensurado. Eles são privilegiados, na sua maneira de ver e viver a vida. São pessoas um nível acima do nosso, com certeza.

Para nós, que até então só tínhamos ficado em Hostal, foi uma experiência diferente. Pudemos conviver um pouco mais com os peregrinos que passavam por ali e ouvir um pouco das suas histórias, seus motivos, seus questionamentos. Foi muito bacana, principalmente porque nos sentíamos mesmo um pouco em casa. Afinal os “donos” do lugar falam nossa língua e nos trataram como velhos amigos.

A Malu me falou uma coisa ontem, que talvez não tivessemos nos dado conta: o bacana do Caminho pra Santiago nao é chegar a Santiago. É o caminho. É quando estamos percorrendo-o que as coisas realmente acontecem. Lá em Santiago tudo acaba e, claro, alguma meta nova começa, mas o caminho em si chega ao seu destino. O conselho dela vai ser muito bem seguido. Aproveitar bem do caminho enquanto ele não acaba. Outra frase que complementa este pensamento foi dito pelo Carlos hoje pela manhã. Ele disse: “Aproveite o caminho, como quem bebe uma garrafa de vinho de 150 dólares. Aos poucos. E aproveitando de cada gota”.

O casal mantém um blog onde eles contam já há tempos suas aventuras em duas rodas e agora relatam um pouco de como ser hospitaleiro no Caminho pra Santiago. Por favor, não deixem de acessar o site deles e descobrir que seres humanos fantásticos eles são. O endereço é: http://kbeppler.multiply.com.

Acho que ficamos mimados. Daqui a dois dias já estamos nos programando pra ficar em outro Albergue brasileiro de novo. :-)

PS.:. Ficamos sem postar ontem, pois onde estávamos há computadores para acesso a internet, mas que foi só sentarmos para usar a internet caiu. Também pudera: é a Telefonica que atende aqui também!!!

Recadinhos aos nossos acompanhantes virtuais.

Flavio: Que bom que esteja curtindo a nossa aventura, meu amigo. Tenho certeza de que você aqui iria se achar em casa. Conte comigo no que precisar pra realizar este sonho também.

Aurorex: Minha pinguinzinha linda. O papai passou mais tempo voando de avião aquele dia que o Papai Noel de trenó na noite de Natal, mas depois deu tudo certo viu? Também estou morrendo de saudades de você! Logo, logo eu chego pra gente jogar Clube Pinguim!!!

Glau: Amore, quando a gente tem em quem se inspirar, até quem nunca escreveu consegue pelo menos se expressar. Que bom que é assim!

Cesar: Nosso colega virtual apresentado pelo Sr. Google. Que bom que está gostando e nos acompanhando. Na volta trocaremos várias figurinhas se você quiser.

Juninho: Você não sabe o quanto a gente chama por você aqui, cara. Cada vez que a bike chia, a gente fala: Cadê o Juninho??? Obrigado por nos acompanhar.

Varda: Cara, sem palavras pra agradecer sua dica. Conhecer o Carlos e Malu foi das boas coisas que nos aconteceu por aqui. Assim que for pra Floripa (o que nao é raro), vamos marcar um pedal aí na ilha.

Tiquinha: O Ronnie mandou te perguntar se você está querendo dizer que ele é cabeça de vento? Eu mesmo respondo: “Claro que nao, né?” :-P

Fer: Quero só dizer que o Cezar Menoti e Fabiano estão acabados. A maledita música foi embora e nunca mais voltou… ufa.

Regina: Se tem uma coisa aqui que não falta é emoção. Como você mesma pode sentir, até uma plantaçã de girassóis é motivo pra gente se arrepiar

Carlos e Malu: Vocês são agora nossos amigos de coração. O modo como fomos tratados não será esquecido e será usado para outros. Acho que é assim que as coisas deveriam ser. Até a volta.

:: Adriano e Ronnie ::



Pedal, apuros e rock’n roll

30 07 2007

São Tiago acompanha o nosso blog. Foi só a gente falar no post de ontem que tudo está fácil, que tudo está dando certo, que ele, após ler a notinha, deve ter pensado: “Ah é, é? Vamos ver… vamos ver…”

O dia começou como todos os outros últimos: muito sol, temperatura agradável até o meio-dia e terreno bom e plano.

Optamos desde o início em fazermos o caminho original, não importasse o quão perto estivesse a rodovia (a chamada carretera). Aliás, nos dois últimos dias, temos pedalado a apenas metros dela. Nao importa se o piso é acidentado e o do carretera liso… Se o caminho original é ali, é ali que vamos pedalar.

Porém, hoje quando vínhamos pra El Burgo Ranero, nosso destino de hoje, fomos subitamente convidados por um grupo de ciclistas espanhóis que passava pela carretera num astral ótimo a nos juntarmos a eles. Não tivemos dúvidas! Emendamos atrás do caras por uns 8 ou 10 Km mais ou menos.

Os caras estão fazendo o caminho num esquema diferente do nosso. Querem chegar a Santiago com apenas 6 dias de pedalada. Então estão indo sempre pela carretera e pedalando cerca de 130 Km por dia. Mas o que achamos bacana é que eles iam pedalando forte, mas, ao mesmo tempo, um brincando com o outro. Um deles tinha um radinho de pilha no maior som!

Foi bacana a hora que tocou uma música que, se não me engano, era do Bob Sinclair e todos começaram a pedalar em pé e forte. Ouvi, inclusive, o Ronnie falando: “Pô, isso aqui parece uma aula de spinning”. Parecia mesmo, só que com a diferença de que ninguém fazia careta. Muito pelo contrário, todo mundo com um sorriso maroto no rosto. Foi realmente um momento muito legal, que o Ronnie gravou em vídeo e colocaremos disponível amanhã (sorry).

Infelizmente, como disse, eles iam numa batida diferente da nossa. Então, depois de acompanhá-los um pouco, nos despedimos e voltamos pro nosso caminho original.

Aliás, hoje achamos que foi um dia bem musical. Nada a ver com o outro dia da música grudenta. Logo que saímos do hotel e fazíamos um alongamento, passou um casal espanhol, que após olhar pra nós, a esposa emendou: “Brasil… meu Brasil brasileiro…” O marido continou e seguiram assoviando a canção… Ficamos todos cheios, claro!

Depois, foi o lance da música do Bob Sinclar. E não muito à frente, encontramos uma brasileira que ensinou a uns italianos os versos: “Poeeeira, poeira… levantou poeira”. O engraçado foi que ela ficou no albergue e eles seguiram viagem. Seguiram viagem, cantando a música da Ivete…

Seguimos a nossa viagem e, num pueblo antes do nosso destino final, paramos pra fazer um lanche e nos refrescarmos. E qual foi a nossa surpresa ao ouvir a qualidade musical do lugar. Quando chegamos, tocava o hit Stand by me, dos Beatles, que depois foi acompanha da versão original de American Pie e outras músicas do gênero. Foi um belo lanche, em todos os sentidos.

Só que ali, o São Tiago tinha armado pra gente, como falei no início. Acho que foi castigo. Ontem fomos jantar num restaurante que, depois, percebemos parecia ser o mais chique do lugar. Comemos uma merluza que veio mais enfeitada que a árvore de Natal do Ibirapuera. Coisa linda de ver! Acho que se algum padre nos visse ali, tomava nossas credenciais de peregrino, as rasgava e mandava a gente sair do caminho deles naquele momento!!

É verdade que a gente está fazendo o caminho num esquema sou-enjoado-tenho-mais-de-trinta, mas também o São Tiago podia ter pego mais leve.

Na saída do barzinho musical, sentamos do lado de fora com o nosso alforge de guidão. Ele é o mais importante pra nós, porque é nele que guardamos: credencial, passaporte, dinheiro, celular, máquina, etc. Pois bem. Depois de alguns minutos relaxando, levantamos e saímos rumo ao nosso destino. Pedalamos cerca de 10 Km e chegamos na cidade. Logo na entrada havia uma imagem que o Ronnie parou pra fotografar. Só ouvi ele falando: “Dri!” Olhei pra ele e ele estava branco. Ele me falou: “A bolsa!”

Foi um momento complicado. Sabíamos que aquilo poderia comprometer toda a nossa viagem. Sem nem pensar, viramos a bike e saímos quase voando.

Se o Alberto Contador não tivesse garantido o título do Tour de France ontem, a gente tinha tomado. Pedalamos feitos loucos de volta, sem ter a certeza absoluta de que a bolsa havia sido esquecida. Ela poderia ter caído também. Então, além de tudo, eu parava cada peregrino que vinha na direção contrária e perguntava se não a havia visto. A resposta era sempre negativa, até que, quase chegando ao fim, um holandês, acredito eu, me responde num fraco inglês que uma mulher havia encontrado uma bolsa e estava procurando pelo dono no bar.

Nossas esperançaas se renovaram e fomos com tudo até lá. Felizmente o São Tiago, na pele da mãe do Ricardo, o garotinho que era filho daquela que achou a bolsa do Ronnie, tinha a guardado no bar, sem ao menos olhar o que havia dentro.

Foi um grande alívio, claro! O Ronnie ainda me questinou se, de repente, ela não se sentiria ofendida em receber uma recompensa. Falei pra ele que perguntasse.

Ele chegou e perguntou a ela se poderia dar um presente ao filho dela. Ela disse que sim e, quando disse que daria 40 euros, ela e o marido, que estava perto, ficaram indignados: “Não, não!” Ele então ofereceu pelo menos 10 e a mãe disse que, se ele aceitasse, tudo bem.

Foi aí que o Ronnie perguntou o nome do pequenino e ele, muito envergonhado, nem lhe deu bola. O Ronnie acabou deixando o dinheiro para que pegasse depois.

O pai do Ricardo queria que ele agradecesse, só que o Ronnie não permitiu. Disse que ele sim é que agradecia pelo o que a mãe havia feito. Aliás, foi dela o comentário de que são um povo honrado. Com certeza, têm mais do que nunca o nosso respeito.

Na verdade, a recompensa do pequeno Ricardo veio na hora de ir embora. O Ronnie, ainda meio afobado com a situação, agradeceu a todos e ia saindo. Foi quando o pai do menino o chamou de volta e apontou para o óculos de sol que já estava largando pra trás de novo.

O Ronnie se deu um tapa na cabeça e a reação do Ricardo foi demais! Ele gargalhou como um doido de ver o Ronnie fazer aquilo. Como dizem, nada como um sorriso sincero de uma criança pra fazer tudo literalmente voltar a ficar bem.

Agora, já está tudo “nos conformes” de novo. Nos instalamos em El Burgo de Ranero e amanhã dormiremos em Hospital de Óbrigo, onde um casal de ciclistas brasileiros está trabalhando como hospitaleiros. Algo me diz que será uma grande festa regada a arroz com feijão e MPB. ;-)

Beijos, abraços e hasta mañana.

:: Adriano e Ronnie ::



Quase na metade

29 07 2007

Ontem (sábado), no final acabamos pedalando 85 Km, pois após chegarmos no ponto que tínhamos programado, vimos que o lugar não era muito legal. A cidade era minúscula e sem estrutura alguma. Então decidimos pedalar um pouco mais pra dormirmos em Burgos.

A cidade de Burgos é uma cidade grande. Moderna, como as grandes cidades européias, mas, pouco atraente pra quem está a fim de ver lugares “diferentes” da paisagem urbana. De qualquer forma, fomos para um hotel legal e dormimos mais cedo do que costume.

Hoje saímos às 8h00 e foi só alegria. O trecho foi praticamente só de planos e descidas e com apenas uma subida um pouco mais puxada no caminho.

Foi nessa subida que vi o Ronnie virando um Mountain Biker de verdade. Aprendeu a controlar a ansiedade, a respiração, e a cadência e venceu uma bela subida sem descer da bike! Ficou feliz da vida e eu também. Nas palavras dele, tem um bom professor. Eu acho que não: a força de vontade é dele, não minha. ;-)

Aliás, estava no banho hoje e pensei que, se tivéssemos que enfrentar os Pirineus agora, a historia seria diferente. Com certeza nos sentimos mais bem preparados a enfrentar as subidas daqui agora. Mas é melhor não ter nenhum Pirineu pela frente não. Um já está bom por viagem.

Feliz ou infelizmente, hoje até não temos muito a contar. Só dizer que é um privilégio estarmos aqui e que estamos curtindo cada momento.

Beijos e abraços aos amigos e parentes do outro lado do Atlântico.

 :: Adriano e Ronnie ::

Video do Dia: