Realizados! Esta é a palavra que resume a maneira como nos sentimos neste momento.
Parece que em todos os momentos-chave da nossa viagem, como a saída e a chegada, damos um “perdido” aqui no blog, não é? Mas a verdade é que uma sucessão de fatos impediu que pudéssemos atualizar as informações diretamente daqui - o que a Glau, muito eficientemente, tratou de fazê-lo.
No sábado, véspera da nossa chegada a Santiago, saímos cedo de Sarriá com a intenção de naquele dia chegar à cidade de Melide, a cerca de 55 Km de Santiago. Assim, no domingo teríamos tempo de sair cedo e chegar para a tradicional missa dos peregrinos, que começa ao meio-dia.
Saímos num ritmo mais lento que o normal. Queríamos aproveitar cada pedacinho de caminho que restasse com calma e tranqüilidade. E assim foi, até que nos demos conta de que estávamos ficando muito atrasados na nossa jornada. Aumentamos então o passo para que os horários nao ficassem tão prejudicados. O fato é que a etapa, apesar de não ter grandes subidas pelo caminho, é de um sobe-desce constante, o que faz com que a nossa parte física fosse bem exigida.
Quase já chegando em Melide, estávamos sem almoçar ainda e já eram 16h00. Tínhamos pedalado 70 Km “na perna”, como se diz. Ou seja, estávamos bem cansados e tudo o que queríamos era um bom banho e um belo prato de comida.
O que não contávamos é que a cidade estivesse lotada. Fomos ao albergue, vários hostais, hotéis e a resposta era sempre a mesma: “Estamos completos!”
Era uma situação complicada. Apesar do cansaço, sabia que à frente havia uma outra cidade um pouco maior, Arzua, onde poderíamos, talvez, encontrar o nosso abrigo, bem como acessar a net para atualizar o blog.
Como nesta época o sol aqui na Espanha se põe por volta das 21h00, calculamos que haveria tempo para comermos, descansarmos um pouco e daí enfrentarmos os 15 Km que faltavam até Arzua - afinal 15 Km nao é muito, mas sempre deve se considerar que seguimos por caminhos fora-de-estrada e sujeito a muitos imprevistos.
Imprevisto. Eita palavrinha!! Saímos de Melide por volta das 17h30 e depois de pedalados uns 5 Km, senti a traseira da minha bike dançando. Já sabia: meu sexto pneu havia furado.
A troca do pneu traseiro com a bike toda cheia de bagagens é sempre uma tarefa chata. Tem que deixar a bike de lado e, para colocar e tirar a roda, tem que ser quase na marra.
Foi na hora de tirar a roda que descobri um outro “detalhe”. Havia um raio partido na minha roda traseira, o que a tinha empenado. Ou seja, além de tudo, ainda estava tendo que fazer o dobro da força.
Se durante a semana já é complicado achar algo aberto por aqui, no sábado e domingo é impossível! Ou seja, para arrumar a bike e chegar a Santiago, eu teria que esperar até segunda - e estávamos a menos de 50 Km do destino!
E outra: não dava para saber ainda se conseguiríamos encontrar um lugar em Arzua. O caminho nos quilômetros finais fica muito cheio. Muita gente só faz desses trechos até Santiago. Com isso, os locais de hospedagem, nesta época de férias europeias, ficam lotados de estudantes que fazem o caminho.
Não tínhamos escolha: teria que tentar levar do jeito que desse. A verdade é que a minha bike já estava todo estrupiada há tempos. O câmbio dianteiro parou de funcionar logo depois do problema com a mecânica em Logrono. O traseiro às vezes funcionava, às vezes ficava soltando a marcha na subida. Terrível…
Os freios trabalhavam o tempo todo porque, com as rodas traseiras e dianteiras um pouco tortas, seguravam a bike demais. A bichinha realmente estava só o pó, mas esperar até segunda-feira nunca seria uma opção.
O fato foi que, levando a bike “na boa” total, encontramos um pueblo que nem o nome me lembro neste momento. Achamos um lugar com pensión e, vencidos pelo cansaço e pela dúvida de achar outro alojamento, por ali ficamos. Claro que internet ali seria o mesmo que achar uma máquina de Coca-cola no Saara. Enfim… Nos contentamos com a boa sorte de achar um bom lugar, com uma boa comida e domingo seria outro dia. Como dizemos aqui, pedalamos um dia de cada vez.
Retomando os fatos deste dia: lembrei de uma família muuuuito bicho-grilo que encontramos. Viajam marido, mulher e duas crianças. A menor, uma garotinha de uns 2 ou 3 anos de idade, vai num carrinho fechado e todo enfeitado de flores. Os pais parecem ter saído de Woodstock hoje mesmo. Figuraças que registrei em foto e que colocarei no álbum nos próximos dias.
Lais, apesar de saber que você nao me lê, esta é para você. Neste dia, por volta das 12h30, paramos num bar do caminho para fazermos um lanche e tomar algo. Fazia um calor infernal. Daí arrumando as coisas na bike para sair e advinha o começou a tocar no rádio do lugar? “Hace calor, hace calor…”. Inacreditável! Os próprios Los Rodrigues vêm fazer companhia num momento tão quente!! Andrés Callamaro mandou lembranças.
Domingo! O dia que seria aquele que chegaríamos, começou fora da hora. Sim! O despertador do Ronnie não funcionou e acordamos atrasados! Puxa vida! Além de termos que ir “pianinho” por causa da minha bike, ainda estávamos bem atrasados. Tivemos então que nos conformar de que não seria possível assistir à missa dos peregrinos.
O caminho até Compostela foi de introspecção, pelo menos para mim. Pensava em tudo o que tinha vivido, nas coisas que vi, aprendi e - por que não? - ensinei. Estava feliz por estar chegando ao destino, mas ao mesmo tempo com um pouco de tristeza por estar terminando. Normal, acho eu…
A chegada ao Monte do Gozo, a pouco mais de 5 Km de Santiago, é a ultima subida do caminho e o visual lá de cima é ainda mais bonito pelo que representa! Vimos que todos os que ali chegavam, chegavam sorrindo. Afinal, o topo marcava o fim da longa jornada e tudo o que tinham a fazer, assim como nós, era descer o morro.
Chegamos a Santiago exatamente às 13h00 da tarde, quando todos saíam da Catedral. Foi um momento difícil de explicar aqui. Cercados por pessoas de todos os lugares do mundo, que tinham chegado ali como um motivo comum e por razões diferentes, nos abraçamos e choramos. Foi o momento de colocar pra fora toda a alegria de um desafio conquistado, de um sonho realizado.
Ficamos ali sentados no chão, com as bikes de um lado e nós de outro, enquanto pessoas de todos os lugares passavam e nos perguntavam sobre a viagem. Queriam tirar fotos conosco. Um momento inesquecível!!
Neste dia também foi dificil usar a internet, não por não haver cybers abertos. Mas era o nosso momento de relaxamento, de celebração e curtição. Sabíamos que entenderiam.
Amigos que têm vontade de fazer este caminho: não deixem este sonho para trás. Eu sei que às vezes é dificil priorizarmos uma viagem perto de tantas necessidades da vida cotidiana, mas uma coisa que tenho cada vez mais comigo é que comprar coisas até nos dá algum prazer. Mase é um prazer muito passageiro. Quando se faz um viagem como esta, é um prazer com o qual vou poder viver para sempre.
Depois de passada a emoção inicial, procuramos um hotel para nos instalarmos e sairmos para conhecer a cidade, que é muito bonita, além de toda a história que a envolve.
O que não tínhamos dito para vocês ainda é que já tínhamos em mente que, após chegar a Santiago, esticaríamos a viagem até Finistérre. Segundo conta a história (que, aliás tem várias versões), o corpo do apóstolo Tiago havia sido enterrado lá e só posteriormente foi transferido pra Santiago. Então como o caminho ainda é considerado encerrado somente lá (cerca de 90 Km a mais), é claro que não iríamos deixar pra lá, né?
A única coisa que sabíamos, porém, é que no dia seguinte acordaríamos mais tarde para descansar, cumpriríamos algumas tarefas como buscar o mala bike no correio, mas, principalmente, fazer uma revisão na minha pobre bike, que chegou só no esforço até seu destino.
Na saída, à tarde, fui pego “no laço” para pagar um mico no número final de um grupo de palhaços argentinos (não, não estou falando de um argentino comum; é o de circo mesmo), já que na cidade estava acontecendo o Festival Internacional de Palhaços. No número, eu tinha que ficar deitado no chão com as pernas flexionadas e o palhaço ficaria de pernas pro ar apoiado nelas. Achei que seria moleza, mas na hora que o negócio começou tive que fazer uma força danada. Senti, inclusive, um início de cãibra na perna. Já imaginaram a cena: eu lá na frente de todo mundo gemendo de cãibra?
O que acontece é que acho que esta brincadeira meio que afetou um pouco as minhas costas, apesar de eu não ter percebido nada de grave na hora.
No dia seguinte, seguimos nossa programação e após deixarmos a minha magrelinha em forma de novo, saímos com a intenção de cumprir cerca de 45 Km do caminho para Finistérre e finalizar hoje (terça) a nossa jornada.
O que aconteceu, porém, é que depois da bike, fui eu que dei defeito. Comecei a ter uma dor muito forte na base da coluna que me impedia de pedalar direito e até de andar. Comecei a pensar que teria que abortar tudo ali. Então, como estávamos numa cidade um pouquinho maior chamada Negreiros, decidimos que mesmo com a pouca quilometragem (25), ficaríamos por ali naquela noite e decidiríamos no outro dia o que fazer.
Fui na farmácia e comprei antiinflamatórios em pomada e comprimido. E cruzei os dedos.
O problema não sei dizer se foi só da carga acumulada de pedaladas, ou do adicional de peso que houve em Compostela, ou se culpa do palhaço argentino (não de circo) que minhas costas estavam assim. Mas, enfim, só no dia seguinte teria a resposta.
Neste dia também foi impossível usar a internet. Os dois cybers do lugar estavam fechados para férias (de 3 meses… fala sério!).
Acordei hoje sem dores e, é claro, fomos pedalar! Tomamos nosso café e partimos. Nos primeiros quilômetros comecei a sentir uma dor no glúteo esquerdo tal qual ontem e comecei a ficar preocupado. Decidi que pedalaria só com a perna direita para aliviar o lado esquerdo do corpo. E assim foi. Fizemos os 70 Km até Finistérre em pouco mais de 6 horas de pedaladas e valeu cada metro. Lugares lindos pelo caminho, mas o destino final é insuperável. Nossa! Lindo demais. As fotos logo vêm.
Meus amigos: gostei da chance de poder falar um pouco, sob meu ponto de vista em cima de uma bike, e decidi manter este espaço sempre atualizado com histórias de outras viagens e coisas afins, até porque ainda continuaremos mais dias aqui pela Europa e nossas magrelas vão aonde a gente for.
A chegada a Finistérre foi, para mim, quase tão emocionante quanto a chegada a Santiago. Havíamos pedalado a Espanha de leste a oeste e estávamos no ponto mais ocidental do país. Na nossa frente só o Atlântico majestoso. Coloquei no GPS: São Paulo. Ele apontou a direção e marcou: 8921 Km. Saudades!!!
Tenho certeza de que esta não foi a única vez que fiz esta jornada. Estarei aqui outras vezes, com certeza. No estilo do Menu Peregrino, penso que só comi o primero plato. Do prato principal ainda nem provei, bem como da sobremesa. Bom… Do vinho tenho certeza que já tomei uma boa parte.
No domingo, quando estávamos na praça da Catedral, um senhor francês chegou até mim e disse, sério: “É proibido motores aqui!” Olhei pra ele meio confuso e ele, num sorriso largo, me apontou as pernas.
Sou muito feliz, pois estes motores me trouxeram até hoje muitas coisas boas. Agora me levaram até o Fim da Terra.
Buena vida a todos.
:: Adriano ::